Nada como conhecer por dentro o espaço em que cada um coloca o seu dinheirinho. É que se acabaram os tempos da confiança absoluta, aquele em que você podia acreditar na plena segurança do capital, uma vez depositado em um banco legal, com carta-patente emitida pelo poder público e confiança pública.

Com experiência de mais de 15 anos no mercado financeiro, o economista Eduardo Moreira acaba de lançar O que os donos do poder não querem que você saiba, pela Editora Alaúde. O livro descreve como funcionam e se combinam os subterrâneos financeiro, econômico e político do capitalismo. Mostra que compreendê-los é condição para que cada um possa tomar verdadeiramente as rédeas do seu dinheiro e da própria vida.

Esse mercado já foi radiografado – e saiu mal na radiografia – em um livro norte-americano, Porque Saí do Goldman Sachs, de um antigo operador do banco, Greg Smith. Com 21 anos, Greg iniciou sua carreira no Goldman Sachs como estagiário, sendo apresentado ao princípio nº 1 dos negócios do banco.

Truco. Greg Smith detalha como o Goldman Sachs, apontado como banco mais poderoso do mundo, , se tornou um vampiro, com diretores que se referiam aos clientes como ‘fantoches’. A coisa foi tão mal que, antes mesmo da crise econômica foi condenado a pagar a multa recorde de meio bilhão de dólares à fiscalização norte-americana, por fornecer produtos trucados e espoliativos aos clientes que nele depositavam sua confiança.

Lloyd Blankfein, CEO de Goldman Sachs, em depoimento à Comissão de Finanças do Senado dos Estados Unidos, disse textualmente que o papel do banco era apresentar produtos financeiros aos investidores. Se esses produtos fossem prejudiciais ao investidor, problema dele. O banco lucraria e ele perderia. Eduardo Moreira faz o mesmo com relação ao sistema financeiro do Brasil. Ele expõe com clareza mitos e verdades sobre o sistema financeiro para que se possa atuar sobre as estruturas do poder de modo ativo.

Eduardo Moreira afirma que, do ponto de vista estritamente econômico, os bancos são apenas lojas que intermediam o dinheiro entre os que o têm sobrando e os que o têm faltando, exatamente como funciona uma loja de carros usados. E, também como uma loja de carros usados, desenvolve seus truques. Basta ver a grande quantidade dos produtos que oferecem, de fundos de pensão VGBL a fundos de renda baseados em CDBs.

No entanto, Eduardo Moreira mostra que, rigorosamente falando, só existem dois tipos de produto: títulos da dívida do governo ou ações de empresas. Os bancos desenham combinações desses produtos, em geral mascarando os verdadeiros retornos e os riscos que se corre, assim como escondem tarifas, taxas de administração e tantas fontes de receita – ou de despesa – de seus clientes.

Eduardo Moreira e Greg Smith fazem até glossários com os termos dados aos tipos de investimento e as arapucas que embutem. Greg Smith antecipa, por exemplo, o que o investidor deve fazer quando se depara com uma oferta de produto estruturado. Sim, fugir como o diabo da cruz.

Confira o que é falso e o que é verdadeiro

No seu livro, Eduardo Moreira dedica todo um capítulo a formular uma lista com mitos e verdades sobre o sistema financeiro.

Mito 1 – O investimento que o banco lhe mostra é o melhor para você

Na verdade, na quase totalidade dos casos, a pessoa que o atende no banco ou corretora tem sua remuneração vinculada ao lucro que gerou ao lhe vender o produto. Isso mesmo: os dois sistemas mais comuns de remuneração vigentes nos bancos e corretoras são o de metas e o de comissões. Quanto mais rentável para o banco for o produto, mais o gerente ganha no final do mês por vendê-lo. Isso faz com que os gerentes vendam sempre os produtos que os fazem bater a meta fixada pelo banco, ou aqueles que geram um maior lucro para o banco — e não para vocês.

Mito 2 – Você deve investir em títulos de capitalização

Títulos de capitalização são simplesmente sorteios, como as loterias, só que com prêmios ridiculamente menores. Títulos de capitalização deveriam ser proibidos de serem vendidos como o são, apresentados como forma de investir.

Mito 3 – Eu perderei meu dinheiro se o banco fechar

Em geral, pouca diferença faz o banco em que você está: importa é o investimento em si.

Mito 4 – Os bancos têm diversos tipos de investimento

Só existem dois tipos de investimentos! Na verdade, todas as opções que você acha que tem à disposição resumem-se somente as ações ou dívidas. Claro, elas recebem dos bancos diversas embalagens diferentes para parecer que você tem dezenas de alternativas.

Mito 5 – A rentabilidade do seu dinheiro equivale ao que você investiu

A rentabilidade do seu dinheiro não é a que você pensa que é. Costumamos analisar a rentabilidade de nosso dinheiro nos bancos ao comparar quanto temos aplicado nos fundos de investimento em relação ao quanto investimos inicialmente. E é assim que os bancos querem que vejamos. Só que bancos cobram inúmeras tarifas de seus clientes e quase todas fora dos fundos. Além dos tributos. As pessoas não descontam esses gastos daquilo que ganharam nos investimentos. Deveriam. Por isso é que fundos VGBL são duvidosos.

(Jornal de Brasília, 4.12.17)

 

 

 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Quem está online

Temos 27 visitantes online