Projeto Vida Odonto permite estudantes de Odontologia treinarem Foto: Arquivo Pessoal

 

Por Rafael Oliveira - Editorias: Universidade

O professor Romero Tori, da Escola Politécnica (Poli) da USP, ministra a disciplina Tecnologias para Educação Virtual e Interativa há mais de 15 anos no Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS). O dinamismo e a versatilidade da matéria atraem estudantes de toda a Universidade, inclusive dos campi do interior. A interação entre grupos heterogêneos dá margem a inovações e parcerias, como a que possibilitou o Simulador de Anestesia Odontológica, projeto em conjunto com a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), que permite aos estudantes de Odontologia treinar a aplicação da seringa.

Mas o simulador é apenas uma ferramenta dentro de um projeto maior: o Virtual Interactive Distance learning on Anatomy, o Vida Odonto que, segundo Romero Tori, é “um projeto inédito no mundo”. Ele recria virtualmente um consultório dentário e um paciente com alto detalhamento interno das estruturas anatômicas da boca, incluindo maxilar e mandíbula. O projeto utiliza-se do mesmo modelo de cabeça do paciente usado no simulador, desenvolvido por Allan Tori e Kim Tanabe na FOB, sob orientação da professora Maria Aparecida Machado.

O Vida Odonto funciona da seguinte forma: ao colocar um capacete de realidade virtual, o usuário “enxerga” a face do paciente virtual e utiliza as mãos para treinar o procedimento odontológico. Além disso, quando o equipamento estiver totalmente finalizado, o professor que estiver orientando o aluno em sala de aula poderá assistir à gravação do procedimento de diversos ângulos, podendo interagir com o estudante dentro do universo da realidade virtual. Confira o vídeo simulando a aplicação de uma anestesia:


O primeiro procedimento testado com essa ferramenta foi o de anestesia. Mas o Vida Odonto será expandido para possibilitar treinamentos de outros procedimentos da rotina da clínica odontológica, englobando desde a obtenção e análise de radiografias até esterilização e organização de instrumentais, passando por interações com o paciente e suas reações emocionais e físicas.

Segundo o estudante da Poli Gustavo Wang, um dos participantes do projeto, o objetivo é ser “uma alternativa ao modelo atual de ensino de odontologia e anatomia”. Para o estudante, o dispositivo, que está em desenvolvimento, também toca no ponto da ética. “(O projeto) permite o autodidatismo, por meio de avaliações automáticas e pode cobrir algumas das deficiências da abordagem tradicional de ensino, a qual utiliza corpos que não apresentam reações fisiológicas, ou de animais vivos, que apresenta uma questão ética”, explica.

Premiação

Em outubro do ano passado, o relato sobre o Vida Odonto Treinamento Odontológico Imersivo por meio de Realidade Virtual  recebeu o prêmio de melhor artigo na Trilha 2 no Congresso Brasileiro de Informática na Educação, ocorrido em Uberlândia, Minas Gerais. Essa categoria está relacionada a simulações e realidade virtual. O artigo tem como coautores o docente da Poli e a professora da FOB, Maria Aparecida Andrade Moreira Machado, além dos estudantes Gustavo Wang, Lucas Henna Sallaberry, Allan Tori e Elen Collaço de Oliveira.

Para Tori, uma das principais qualidades do projeto é unir faculdades distintas, inclusive em questão de cidade. São alunos e profissionais da Poli, do curso de Ciências Moleculares, de Odontologia e até de Design. Além disso, o Vida Odonto e o projeto que o antecedeu concentraram em si Projetos de Formatura (conhecido como Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC, em algumas unidades), iniciações científicas e trabalhos de pós-graduação, incluindo de doutorado.

À esquerda, consultório odontológico recriado virtualmente. À direita, a cabeça do “paciente” – Foto: Reprodução

 

Futuro

Segundo o docente da Poli, tanto a realidade aumentada quanto a realidade virtual são tendências fortes na educação. Apesar de já existir há algumas décadas, a viabilidade financeira e em larga escala desse tipo de equipamento hoje é muito maior, tornando-o acessível ao grande público.

Para o professor, há três situações em que o uso de simuladores se aplica: acontecimentos impossíveis de se acompanhar em tempo real, como uma explosão solar ou o desenvolvimento de um feto; casos onde verba infinita resolveria, como, por exemplo, mostrar o Museu do Louvre para alunos de arte ou o simulador de partículas suíço para alunos de física; e a terceira vertente, voltada para ramos como o da saúde, onde é possível treinar situações que trazem riscos, como uma operação ou mesmo a aplicação de uma anestesia.

Mais do que isso, Tori acredita que a tendência, que já é uma realidade na aviação, se espalhe ainda mais. “Eu faço a extrapolação de que isso (o uso de simuladores) vai passar a valer para todas as áreas. Na área de saúde, o cirurgião não vai poder fazer uma primeira cirurgia se não tiver tantas horas de simulador. Eu imagino que será assim. A gente já tem para autoescola, por exemplo”, aponta o professor da Poli.

Para Tori, autor do livro Educação sem distância, é preciso deixar o preconceito com a Educação a Distância (EAD) de lado. “Mesmo na educação presencial, você põe um aluno em uma sala com 100, 50 alunos, que o professor mal conhece, ele está distante também. Existem três relações dentro da educação: a relação aluno-professor, aluno-aluno e aluno-conteúdo. Você pode ter distanciamento nessas três relações. Minha linha de pesquisa é reduzir distância, em todas essas vertentes, com o uso da tecnologia”, explica.

O professor vislumbra um futuro com a educação mais híbrida, onde o aluno aprende com aulas presenciais e também com conteúdo a distância, fomentando a utilização dos dispositivos próprios, como os smartphones. “Muita tecnologia, mas com metodologias adequadas. Às vezes a gente vê algumas escolas que implementam realidade virtual, mas acaba não funcionando bem, porque não foi bem planejado”, finaliza.

 

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